Fluxo “gringo” seguirá? 5 questões para mercados brasileiros enquanto guerra continua

O conflito entre Irã e Estados Unidos-Israel já se estende pela terceira semana e dá poucas indicações de um desfecho em breve, com os impactos também se estendendo pelos mercados, principalmente via petróleo.

Em meio a um cenário incerto, o Bradesco BBI buscou responder às cinco principais perguntas recebidas de investidores para a equipe de estratégia do banco sobre o impacto da Guerra do Irã em andamento no Brasil, destacadas abaixo:

1. Como o Banco Central poderia responder ao choque?

O BBI aponta que o Copom enfrenta o clássico dilema do choque de oferta. “A doutrina padrão de política monetária exige a acomodação de choques primários dentro da banda de tolerância, reservando-se a resposta para efeitos de segunda ordem — e é difícil imaginar um exemplo mais clássico do que este choque no preço do petróleo. Isso não parece justificar uma reavaliação das perspectivas: a taxa de câmbio tem se mostrado surpreendentemente resiliente desde o início do conflito, com o real valorizando-se em cerca de 3% entre as duas últimas reuniões do Copom e sendo negociado como moeda de commodity, o que compensa parcialmente a transmissão do choque. Dito isso, a projeção do modelo de inflação deve mudar de 3,2% para 3,6% no horizonte relevante, o que justifica alguma cautela”, avalia.

Assim, mantém a previsão de um corte de 50 pontos-base (ou 0,5 ponto percentual) na reunião desta quarta e uma Selic de 12,0% no final do ano, mas reconhece que o equilíbrio de riscos se deslocou para uma maior cautela.

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Variáveis para a economia local e global, incluindo o conflito no Oriente Médio, agravam o risco de inflação e elevam a aposta de que Comitê será cauteloso, optando por corte menor no juro ou até manutenção

O grau de restrição monetária acumulada dá ao Copom a flexibilidade para absorver o choque sem sinalizar um abandono do ciclo de afrouxamento monetário — e pode até permitir que o Comitê reforce a mensagem de que o ritmo de ajuste permanece gradual e dependente de dados, sem se comprometer com o ritmo de cortes de juros das reuniões subsequentes.

2. Com que rapidez um choque do petróleo se propaga para a inflação no Brasil?

A maior parte do mecanismo de transmissão ocorre por meio da política de preços da Petrobras (PETR3;PETR4), o que torna a velocidade e a magnitude da transmissão incertas. Nos últimos anos, o padrão tem sido de ajustes graduais, e não de respostas imediatas a choques internacionais.

Em 2022, quando o Brent atingiu US$ 128/barril, as diferenças entre os preços domésticos e internacionais aumentaram para 40% para o diesel e 30% para a gasolina, antes que a Petrobras implementasse ajustes de 25% e 19%, respectivamente.

No cenário atual, com o Brent se estabilizando em torno de US$ 80/barril, uma transmissão de aproximadamente 50% adicionaria cerca de 0,4 ponto percentual ao IPCA. Caso a diferença total seja eliminada, nossa previsão para o IPCA em 2026 passaria de 3,8% para 4,2% — ainda dentro da faixa de tolerância.

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Como visto recentemente, os ajustes no diesel tendem a preceder os da gasolina, e o governo já se agiu preventivamente, zerando as taxas do PIS/COFINS sobre as importações de diesel e anunciando um subsídio por litro com um custo fiscal estimado em R$ 30 bilhões em 12 meses, parcialmente compensado por um imposto temporário sobre a exportação do setor petrolífero.

3. Além da inflação, quais são as principais implicações de um choque do petróleo?

Para as contas externas e as finanças públicas, o impacto líquido no Brasil é positivo e fácil de estimar.

Na balança comercial, a posição favorável do Brasil em relação ao petróleo e combustíveis (exportações líquidas de aproximadamente US$ 27 bilhões em 2025) se amplifica com preços mais altos: a US$ 80/barril Brent, o incremento estimado na balança comercial chega a US$ 11 bilhões, com uma melhora de 0,4 ponto percentual no déficit em conta corrente como percentual do PIB.

No lado fiscal, a transmissão ocorre por meio de dividendos, royalties e impostos sobre combustíveis da Petrobras, com um impacto positivo de 0,3 ponto percentual no saldo primário federal (considerando uma taxa de câmbio média de R$ 5,30 o dólar).

Duas áreas de risco específicas se destacam para a agricultura: o Oriente Médio responde por aproximadamente 40% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados e por 30% das importações brasileiras desse insumo, enquanto o Irã foi o maior destino das exportações brasileiras de milho em 2025, absorvendo 23% dos embarques.

O impacto na atividade doméstica é mais complexo, pois envolve forças compensatórias. O Brasil se beneficia como exportador de petróleo, mas enfrenta efeitos negativos decorrentes do crescimento global mais fraco. O efeito líquido é marginalmente positivo, mas esse cálculo depende criticamente da persistência do choque e da intensidade de seu impacto negativo na demanda global — ambos fatores ainda incertos, enquanto a volatilidade do preço do petróleo permanece em níveis sem precedentes.

  1. Existem opções de refúgio em ações? Quais são as oportunidades com a queda?

Para o BBI, algumas ações de empresas petrolíferas continuam sendo proteções atraentes contra o agravamento ou prolongamento de um conflito, com muitos investidores
com posições abaixo da média. O BBI manteve a PRIO (PRIO3) em seu portfólio modelo para a América Latina.

Além disso, também vê oportunidades em ações brasileiras sensíveis à taxa de juros, que também estão entre os segmentos menos valorizados no Brasil, o que é surpreendente, tão perto do início de seu ciclo de cortes de juros de importância global, e agravado pela reprecificação de mercado de um ciclo mais superficial em função das recentes preocupações com a inflação impulsionada pelo petróleo.

O banco também vê oportunidades em empresas de crescimento de qualidade, como Nubank (BDR: ROXO34) e Mercado Livre (BDR: MELI34), que se tornaram
órfãs devido aos recentes fluxos focados em ETFs, à rotação para longe de ações relacionadas à tecnologia e exacerbadas pelo atual movimento de aversão ao risco
e pela fraqueza do real. Os valuations sofreram desvalorização significativa e as ações agora são negociadas a preços em linha com os de países com menor crescimento.

Mais além, destaca o Chile, um importador líquido de petróleo que os investidores penalizaram nas últimas semanas, mas que apresenta uma perspectiva de reavaliação estrutural sob o novo governo que assumiu o poder na semana passada, com uma crescente surpresa econômica e nos lucros, e espaço para novos ganhos cambiais. Os termos de troca permanecem altamente positivos, com os preços do cobre cerca de cinco vezes mais relevantes do que os do petróleo.

  1. O que muda para as ações? Os fluxos estrangeiros continuarão?

O BBI considera as ações brasileiras e da América Latina como beneficiárias líquidas relativas da guerra com o Irã. A economia e o mercado de ações brasileiros estão ambos “comprados em petróleo”, assim como os da Argentina e da Colômbia, e a América Latina é uma região geopolítica secundária em comparação com a Ásia e a Europa Central e Oriental, Oriente Médio e África (CEEMEA).

“A história tipicamente ‘favoreceu os corajosos’ em eventos geopolíticos e globais importantes anteriores”, destacou o BBI, apontando também ver o Brasil como o beneficiário global de uma rotação tardia.

“Acreditamos que a volatilidade atual será vista como uma oportunidade de compra no Brasil por muitos investidores estrangeiros e locais que ficaram para trás na forte alta dos últimos meses e estão significativamente subexpostos a mercados emergentes e/ou ações”, avalia.

O banco aponta que, de fato, continua a observar entradas de ETFs no Brasil nas últimas três semanas, desde o início do conflito com o Irã, especialmente com os dois principais catalisadores domésticos do Brasil tão iminentes: 1) o provável início do ciclo de corte de juros (a partir dos níveis mais altos do mundo), com o benefício duplo de conter a saída de capital de ações locais, e 2) o ciclo eleitoral de outubro em ritmo acelerado, com o prazo de 2 de abril para que os funcionários renunciem aos seus cargos para concorrerem a novas eleições.

“O Brasil é nossa principal escolha na América Latina, com foco em ativos sensíveis a taxas de juros, ações do mercado de capitais e empresas estatais”, conclui a equipe de estratégia.

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